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Memória da ausência

Jaime Cimenti
Jornal do Comércio (Porto Alegre, 16/02/2018)

Roupas sujas (Companhia das Letras, 178 páginas), romance, é o mais recente livro de Leonardo Brasiliense, nascido em São Gabriel em 1972, formado em Medicina e, na vida real, funcionário da Receita Federal em Santa Maria. Brasiliense é autor de O desejo da psicanálise (Sulina, 1999), Whatever (Artes e Ofícios, 2009) e Três dúvidas (novelas, Companhia das Letras, 2010, Prêmio Jabuti), entre outras obras.

A narrativa de Brasiliense, acima de tudo, faz da ausência a matéria-prima para o desenrolar de um drama a um tempo particular e universal. A comovente saga familiar retrata e retraça as consequências da perda da figura materna e explora com precisão e síntese a brutalidade das relações humanas e sua persistência no tempo. O romancista trabalha com a tradição e com a memória, e vai transmitindo e compartilhando a construção da identidade de uma família.

No Sul de um Brasil rural, onde os papéis sociais são preestabelecidos, a morte da mãe de Antônio provoca um rearranjo dramático na família descendente de imigrantes italianos. Aos 8 anos, o protagonista, sexto de sete irmãos, limpa as armas do pai e ajuda Valentina, de 12 anos, na educação do caçula. Os gêmeos Estevam e Ferrucio trabalham com o pai na lavoura e disputam o amor da mesma mulher.

As duas irmãs mais velhas dividem os afazeres domésticos e um drama particular. Maria Francisca anuncia que vai casar com um jovem colono alemão. A primogênita Geni aceita calada a falta de um pretendente e a humilhação de ver a convenção sobreposta pela dura realidade. Os hábitos dos antepassados resistem ao tempo, e as relações familiares se desenvolvem entre o poder indomável da natureza e a rigidez moral dos costumes. O conflito está em cada personagem, ao seu modo. As palavras são tão importante quanto os silêncios. Os segredos podem ser guardados, mas não conseguem ser extintos.

Com uma prosa econômica mas eficiente e cortante, com sedução narrativa e minúcias em doses exatas, Leonardo Brasiliense nos oferece um painel pungente de um tempo em que ainda era comum nascer em casa. O autor evita a forma encomiástica que muitos autores utilizam para tratar de temas ligados à imigração italiana no Sul do Brasil e mostra, sem pudores, o que a falta de uma matriarca pode provocar numa família do meio rural.

Leonardo Brasiliense
16/02/2018

 

 

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