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Dobras da Leitura

Peter O’Sagae
(www.dobrasdaleitura.com)

É hora de todos os perigos e alarmes adolescentes, nossa vida por um triz: com a primeira brincadeira debaixo das cobertas, ou quase isso, as medidas comparadas no vestiário, o destemor diante das pequenas mentiras, o horóscopo que a gente lê e não dá trela, mais as contradições que o dia-a-dia vai transformando na descoberta de que "ser criança era moleza". Aos 12 ou 16 anos, cremos que nossa vida não tenha ainda um passado, o tempo não adquiriu relevo suficiente, nem responsabilidades. É sempre agora, história sem memória, só alegria e tragédia grega. Mas de repente, ele chega e empata a parada: crescemos.

Os minicontos de Leonardo Brasiliense vivem pela pulsação de um fotograma, série de mínimos minutos que não precisam mais do que meia página para serem íntegros e integrais. Sua linguagem breve e intensa, ao modo de um telégrafo literário, vai pontuando de humor, ironia e sarcasmo toda a matéria narrativa que a literatura juvenil mais convencional pasteurizou e embrulhou para os jovens leitores. O autor não estende seu discurso pelas vielas e atalhos de um moralismo bem comportado; ao contrário, registra à face da palavra tudo aquilo que é como é — e resulta, para quem é a fim de um debate, em qualidade estética de encontro à ética.

Eu mesmo me pergunto como o autor conseguiu esse efeito. Serão as descrições exatas, as imagens claras das situações? Uma narratividade construída de implícitos que nos fazem cúmplices? Certa dose de suspense, o ritmo que não perde tempo, a quebra de expectativas? Enfim, esfinge, o humor se prega em nós como sorriso de monalisa.

E veja lá: se a literatura impõe um processo de identificação, como se estivéssemos no sofá da sala de uma psicóloga, cuidado! Ela, arte ou profissional de corações e mentes, parecerá que sabe muito mais que nós mesmos. Será que perdemos alguma coisa?


16/06/2009

 

 

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