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Segredos, silêncios e abismos

(“Roupas Sujas”, de Leonardo Brasiliense, prova que a família onde nascemos influencia o resto da nossa vida — para o bem ou para o mal)

Igor Zahir
(escritor, jornalista e crítico literário)
Na Revista Bravo!, em 22/01/2018.

Em diversas obras da literatura mundial, é possível refletir sobre o papel decisivo da estrutura familiar na formação do caráter e do sistema emocional dos indivíduos. O Morro dos Ventos Uivantes, da escritora britânica Emily Brontë, mostra como os traumas psicológicos causados na infância por uma disparidade social, podem transformar uma linda história de amor em tragédia. Em Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez conta a trajetória da família Buendía–Iguarán, ou como “as estirpes condenadas não têm uma segunda chance sobre a terra”, nas palavras do cigano Melquíades. Já A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, relata a saga da família Trueba, arruinada no futuro por atitudes inescrupulosas de um poderoso patriarca. E não podemos esquecer o aclamado romance A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski, sobre a família de Bento Gonçalves e o papel feminino durante a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul.

Também no sul do país se passa o novo livro de Leonardo Brasiliense, Roupas Sujas. No romance, acompanhamos uma reviravolta na família de Antônio, após a morte da matriarca durante o parto do sétimo filho. Com as funções parentais pré-estabelecidas, o falecimento mexe com todos da casa. Geni, a primogênita de 20 e poucos anos, passa a cumprir os papeis maternos. As atividades da garota são repassadas para sua irmã do meio, enquanto os gêmeos trabalham na roça com o pai. Antônio, de apenas oito anos, limpa as armas e ajuda Valentina, de 12, na educação do caçula, Pedro, que não chegou a conhecer a mãe, já que estava atravessado dentro da barriga quando ela morreu, e o pai, “antes mesmo de chorar o luto, abriu o ventre da mulher com uma faca para salvar o menino”.

Esse e outros detalhes viscerais são citados em notas de rodapé (em terceira pessoa), necessário complemento à narrativa de Antônio, o protagonista que conta boa parte da história. Sua visão infantil, em capítulos curtos, garante que a trágica realidade da família de colonos na década de 70 seja descrita com mais delicadeza e suavidade. É através da inocente voz interior do menino — e, em seguida, dos pontos de vista de Valentina e Pedro, décadas depois — que acompanhamos a deterioração de um núcleo familiar onde pouco se conversa, muito se reprime, e que faz lembrar a maldição dos cem anos de solidão. O silêncio gera ruínas. Os segredos, ainda que guardados, não podem ser apagados. E por mais que tais segredos tentem evitar a dor dentro de um clã, um dia as vítimas desse mal o descobrem, e o abismo entre elas não tem mais jeito.

Vale lembrar que, do Rio Grande do Sul, já saíram grandes escritores, tanto na velha guarda, como Lya Luft, Caio Fernando Abreu, Mário Quintana, Tabajara Ruas, Érico e Luís Fernando Veríssimo, quanto na literatura contemporânea, como Letícia Wierzchowski, Fabrício Carpinejar, Martha Medeiros e Antônio Xerxenesky. Quanto a Leonardo Brasiliense, apesar de já ter ganhado um prêmio Jabuti (por Adeus Conto de Fadas, em 2006) e de ter vários livros publicados, pouco se sabe sobre ele — que é formado em Medicina pela UFSM e trabalha na Receita Federal. Pouco, diante do reconhecimento que ele merece por ser o ótimo autor que já se mostrou.

Roupas Sujas é um drama capaz de fazer até as pessoas de sangue mais frio se perguntarem como o clã onde cresceram influenciou todo o resto de suas vidas. E que segredos obscuros podem haver dentro de sua família.

Leonardo Brasiliense
25/01/2018

 

 

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