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Roupas sujas, por Aguinaldo Severino

http://guinamedici.blogspot.com.br, janeiro/2018

Leonardo Brasiliense é um sujeito que conhece bem seu ofício e não repete fórmulas que já deram certo. Já publicou novelas curtas, contos, histórias dirigidas ao público infantojuvenil, mini-contos. Cada novo livro dele oferece ao leitor algo que realmente surpreende. Neste "Roupas sujas" encontramos uma história compacta, que alcança fixar em tons quase líricos algo de terrível, triste, de vidas que parecem já fadadas à destruição, maculadas de tal forma que punições e tragédias serão repartidas por todos os descendentes de alguém que comete um ato vil (os ecos gregos dessa história são sutis, porém inequívocos). A trama se passa no interior do Rio Grande do Sul, na segunda metade do século passado. A morte de uma mulher ao dar a luz de seu filho caçula, Pedro, provoca rearranjos na estrutura familiar de um grupo de agricultores bastante modestos, que passam por dificuldades e contam com o clima e a sorte para prosperar. Os sete filhos órfãos (de Geni, já com vinte anos anos, a Antônio, com oito) assumem responsabilidades que estão acima de suas capacidades, todos se esforçam para fugir de um modo de vida estagnado, tóxico, todos parecem não saber exatamente o que devem fazer para de fato ajudarem uns aos outros. O pai é um estorvo, alguém incapaz de se reinventar após a morte da mulher, alguém que engendra suas próprias Erínias. A história é contada pelos três irmãos mais novos (Antônio, no tempo presente da trama, com os olhos de criança - como Henry James já nos ensinou; Valentina, após vinte e cinco anos dos sucessos vividos pelos irmãos, já com sua cota de aborrecimentos pessoais e brevemente por Pedro, o caçula, quando já bem velho, já tendo sublimado o que ele entende como sua culpa, ter nascido ao mesmo tempo que sua mãe morre). "Roupas sujas" é um romance que convence. É curto, deixa-se ler rapidamente, mas as reflexões dos narradores acompanham o leitor por dias. Interessante mesmo. Leonardo sabe falar sobre sentimentos, estranhamentos, escolhas, coisas que normalmente evitamos fazer, como, por exemplo, quando temos notícia de uma desgraça pessoal ou familiar alheia às nossas, e não sabendo como tragar aquilo tudo, sacudimos a cabeça tentando espantar o mal estar, o desconforto. Ele alcança nos fazer tomar todo o cálice de dor de seus personagens. O gosto é amargo, mas nele há alguma sabedoria. Vale!

Leonardo Brasiliense
24/01/2018

 

 

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