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Olhar regional para drama universal

(Enxuto e incisivo, o romance conta a história de uma família do Sul nos anos 1970)

Miguel Conde
(Jornalista, doutor em Letras pela PUC-Rio e editor de resenhas da revista “Words Without Borders”)
Em O Globo (23/12/2017)

Aos 45 anos de idade, o gaúcho Leonardo Brasiliense
lança seu décimo livro de ficção como autor já reconhecido com um Jabuti (pelo juvenil “Adeus conto de fadas”), uma das mais importantes distinções literárias do país, e diversos prêmios regionais em seu estado natal. Apesar do prestígio crítico, é ainda um escritor relativamente pouco conhecido se comparado aos principais nomes de sua geração, uma situação que a publicação deste romance talvez venha, com justiça, modificar.

Para quem não tiver ainda ouvido falar de Brasiliense, “Roupas sujas” é uma apresentação que fica na lembrança. Escrito à maneira de um livro de memórias do seu narrador e personagem principal, Antônio, conta a história de uma família de colonos no interior do Sul do país nos anos 1970. Como sugere a alusão do título ao provérbio (“roupa suja se lava em casa”), não se trata porém de uma história épica a se desenrolar pela vastidão dos pampas. “Roupas sujas” é antes um drama doméstico, enxuto em suas 184 páginas e incisivo no modo de narrar as paixões e conflitos de seus personagens.

A voz circunspecta de Antônio realça, por contraste, a violência dos acontecimentos que se abatem sobre a família numerosa. O primeiro deles, que terá para a
história o peso de uma sina com a qual os personagens devem se haver, é a morte da mãe de Antônio durante o parto de Pedro, o oitavo e último filho. Um acontecimento trágico mencionado de saída como nota de rodapé à frase inicial do livro: “Meu pai teve oito filhos.*” E a nota ao pé da página: “*A mãe faleceu no último parto. Nem
pôde ver a criança: morreu com o filho atravessado na barriga.”

A voz impessoal das notas, como entendemos ao longo da leitura, suplementa em terceira pessoa os detalhes da narrativa de Antônio. Ele próprio recordará assim a
morte da mãe, algumas linhas adiante: “No outono do ano
seguinte à morte da mãe, Maria Francesca, a segunda entre as mulheres, anunciou que iria se casar.”

É uma frase característica do que há de mais notável na prosa do autor neste livro. Escrita sem ênfase, condensa de forma incisiva o drama da família, dividida entre a dor do acontecimento traumático e os planos e desejos de juventude dos filhos.

A tensão que aí se instaura, e que tem na figura ameaçadora do pai de Antônio seu nó central, irrompe de maneira às vezes quase imperceptível: “Geni cortava o repolho fixada nos noivos, e cortou o dedo. Não fez
cara de dor, só olhou para o corte, deixando o sangue escorrer no repolho.” Em outras, porém, tem efeito devastador, como no acidente que mutila um dos irmãos de Antônio: “O pé estava pendurado na canela por um fiapo de carne. Maria Francesca deu um grito. Foi-se o osso, foi-se tudo. Eu não tive nojo. Teria, mas me distraí: pensei no futuro de Estevam, ele andando de muletas, o pé direito pendurado, balançando no ar.”

A própria narração de Antônio se faz aos pedaços, meio a esmo, como se também em seu andamento um tanto desencontrado se inscrevesse algo dessas lacerações. Nas seções finais do livro, as vozes de outros irmãos assumem a narração e trazem a história para o presente, apontando os caminhos de vida que se desenrolam para além do passado conflituoso. Este nunca parece, porém, ficar de todo para trás.

Leonardo Brasiliense
23/12/2017

 

 

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