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Decapitados, por Aguinaldo Severino

guinamedici.blogspot.com.br, outubro/2014

Depois de uma semana longe de casa eis que volto e encontro encomendas e mimos me esperando (além de contas a pagar e um punhados de ridículos folhetos de propaganda da indigente política brasileira, claro). Na caixa da Casa del Libro estavam o último Javier Marías ("Así empieza lo malo"), os contos completos de Thomas Hardy e as duas séries de ensaios do Cabrera Infante sobre as quais já li maravilhas (de sorte que esse final de ano promete alegrias mil, seguro que sim). Na cota dos mimos inesperados encontro este "Decapitados", narrativa mais recente de Leonardo Brasiliense (sujeito que andou ocupado, pois esse é o terceiro livro dele editado neste ano). No domingo, ao invés de preocupar-me quem seria a nulidade que os gloriosos brasileiros escolheriam para governá-los, dediquei umas boas horas à prosa refinada de Brasiliense. Fiz bem. Em "Decapitados" o leitor encontra dois textos que se espelham: uma novela e um conto (escrito na forma de um drama, pronto para ser encenado e/ou filmado). Na novela acompanhamos como os moradores de uma pequena cidade reagem ao desaparecimento de uma relíquia religiosa (o crânio de um sujeito que foi muito importante na fundação, crescimento e posterior emancipação política da cidade, um velho monsenhor, há muito falecido). O protagonista da história é Alexandre, um jovem que encontra o crânio e não sabe como fazer para devolvê-lo à capela de onde foi retirado (o leitor não sabe exatamente como o crânio chegou até o rapaz, mas isto pouco importa). O que a história discute são as reações intempestivas de cada morador da cidade ao desaparecimento do crânio, como se todos estivessem num transe religioso que se dissipa, deixando-os desamparados, decapitados todos, sem rumo (livres afinal, mas nem sempre e nem todos sabem apreciar o valor - e a necessidade absoluta - da liberdade). Entendi a novela como uma reflexão sobre as dores de um aprendizado e sobre as dificuldades dos ritos de passagem da juventude para a vida adulta ou sobre as agruras de uma sociedade que perde o conforto de sua rede de hipocrisias. Brasiliense parece também inverter a cronologia do mito da queda dos homens no paraíso, fazendo Alexandre encontrar o mal encarnado numa serpente apenas no final. Curioso. Finda a novela encontramos um conto curto. Basicamente trata-se de uma cena dramática, onde um grupo de pessoas, num bar da periferia da cidade descrita na novela, conversa (ou antes, produzem monólogos ensimesmados que não permitem verdadeiramente alguma interlocução). Em algum momento um dos personagens fala da recente retirada do crânio do monsenhor no cemitério, mas ninguém o leva à sério. Enquanto na novela são as pessoas mais importantes da cidade que se manifestam (e enlouquecem), por conta do sumiço da bizarra relíquia, no conto as pessoas simples da periferia reagem com indiferença total ao próprio projeto de criar uma relíquia, mais preocupadas que estão com seus próprios problemas. O contraste é muito interessante. Vida longa para "Decapitados" meu caro Brasiliense, vida longa. E parabéns.

Leonardo Brasiliense
27/06/2015

 

 

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