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Olhos de morcego na Feira do Livro de Porto Alegre

Luiz Antonio de Assis Brasil
Zero Hora (Porto Alegre, 1˚/11/2008)

Não por acaso Leonardo Brasiliense – mesmo vivendo em um meio de tão rica produção literária, como é o Rio Grande do Sul – tem recebido premiações consagradoras como o Jabuti e o Açorianos. Olhos de Morcego segue e acrescenta na sua escritura: a palavra cada vez mais exata, o gesto sempre mais agudo e certeiro. O próprio autor explica-nos – embora não precisasse fazê-lo – através da epígrafe, emprestada a Aristóteles que, tal como os olhos dos morcegos reagem com perturbação à luz do dia, assim também nós espantamo-nos ao ter jogada sobre nós a luz da verdade humana mais profunda. Profunda, por essencial, é preciso dizer: em geral, essa verdade está na superfície, e a banalidade mortal de sua expressão esconde-se por trás de cortinas escuras.

Olhos de Morcego é uma obra marcada pela tragédia da ausência de sentido, da falta de uma grandeza que o homem julga ter – e não tem. As histórias de Leonardo Brasiliense passam-se no cotidiano, mas no cotidiano em que algo estranho acontece, alterando para sempre a vida de seus participantes. Suas personagens ganham existência num rápido esboço, em meia-dúzia de palavras. Os espaços ficcionais ora estão no pampa, ora na Avenida Paulista. E o escritor é sempre o mesmo, com sua identidade autoral. Isso é técnica, mas também é arte.

Olhos de Morcego é uma obra a não perder; deve ser lida estética e humanamente – com olhos de gente que não tenha medo da beleza e da verdade. E nem do escuro, condição necessária à claridade.


01/11/2008

 

 

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