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Presente e passado na obra de dois contistas

Tailor Diniz
Aplauso, Ano 11, n° 91 (Porto Alegre, abril/2008)

Dois contistas gaúchos estão com livros novos na praça, Leonardo Brasiliense e Vitor Biasoli, ambos com uma obra já consistente em seus respectivos currículos.

Em seu novo livro, Olhos de Morcego, Brasiliense mantém as características de obras anteriores ao tomar como ponto de partida para sua ficção aqueles eventos comuns da vida cotidiana protagonizados por pessoas simples, aparentemente sem uma grande biografia, mas que, na mão de um escritor sensível e atento para as mazelas humanas, acabam se transformando em personagens de uma impressionante densidade psicológica.

A matéria-prima de Brasiliense são os dramas banais de criaturas banais que habitam cantos esquecidos do mundo quase como se não existissem. Pode se revelar tanto no episódio de um peão perdido, à noite, no meio do pampa, como no da adolescente rebelde que planeja uma fuga para se encontrar com o namorado, ou da parteira que nunca teve filhos, da viúva de um marido que só lhe deixou dívidas, da avó que procura o estuprador da neta para fazer justiça com as próprias mãos, ou do genro que toma cerveja em companhia da sogra como forma de se auto-excluir dos conflitos familiares.

Nota-se ainda na obra de Brasiliense uma reiterada inquietação com a técnica narrativa, já nítida em seus livros anteriores, explícita agora no primeiro conto do novo livro, o excelente Fim dos Tempos. A ação se desenvolve a partir da transmissão ao vivo de uma tentativa de linchamento. Mas o interessante aqui é a técnica e o seu efeito. Por meio de uma nervosa, mas equilibrada, alternância de focos, que vai da câmera à tela do vídeo, do personagem que participa da ação ao que assiste na televisão, o autor transmite com real precisão um tipo de evento muito comum hoje na programação cada vez mais apelativa da tevê brasileira. Fim dos Tempos lembra o carioca Sérgio Sant’Anna, um dos autores brasileiros mais inquietos com as possibilidades técnicas da narrativa.

Vitor Biasoli, por sua vez, segue um outro viés: a memória e suas implicações na vida presente dos personagens. O louvável em Uísque sem Gelo é que o autor, ao contrário do que muito se vê em obras de tal conteúdo, não faz de seus personagens criaturas que reverenciam o passado com ranço saudosista, invocando-o como o ideal e insuperável em todos os sentidos. Pelo contrário, nessas constantes referências a fatos da infância e da juventude há sempre a necessidade, às vezes quase frenética, de reavaliar certas posturas com o objetivo de entendê-las a partir de um novo contexto. A narrativa muitas vezes vem carregada de melancolia e sofrimento, ingredientes importantes para se entender o ambiente claustrofóbico no qual mergulhamos personagens-narradores de Biasoli.

O autor tangencia ainda um período emblemático da política brasileira, os anos 70, auge da ditadura militar, e faz dele, sem rancor ou reverência, um pano de fundo consistente, uma espécie de rio a transitar com vigor no subsolo do texto. A agitação da vida universitária, as repúblicas estudantis, a liberação sexual, o dia-a-dia de uma geração inquieta que se conflita com os fortes resquícios de puritanismo do início do século fazem de Uísque sem gelo não apenas uma possibilidade de reencontro para aqueles que viveram a mesma época. Permite também o conhecimento sobre uma época ao mesmo tempo obscurantista e de libertação, com fortes implicações nos dias atuais.


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