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Des(a)tino, de Leonardo Brasiliense

Daniel de Sá
Suplemento Açoriano de Artes e Letras (Ponta Delgada, Portugal, julho/2003)

Os Brasileiros recriaram a nossa Língua comum, ou talvez a tenham apenas mantido mais arcaica, mais pura, portanto. Os que escrevem nesse tom maior do Português partem com uma vantagem sobre nós, os que estamos do lado de cá do mar Oceano onde navegou o sonho e a aventura, que é a de disporem da capacidade de dizer as mesmas coisas com um brilho especial na voz e na escrita. No Brasil, a Língua perde preconceitos legalistas ou academistas para soar como um "vivace" no estilo e na fonética.

Leia-se, escutando-lhe o ritmo, estas linhas do livro Des(a)tino, de Leonardo Brasiliense: "Naquela noite, caía uma chuva rala, sem lado certo. Preguiçosa embora insistente, sem trovão, sem relâmpago, mas senhora do céu, não dava vez a fiozinho de estrela alguma, e a lua nem se sabia qual era." Escrita do lado de cá, a cena talvez se tornasse lúgubre, escura como breu, de estrelas ausentes e de lua apagada. Lá, resulta num texto luminoso em contraste com a cena descrita, realçando a chuva triunfante e aligeirando a demissão das luminárias celestes.

Faz parte do primeiro conto, ou sucessão de pequenas biografias, de Des(a)tino, uma galeria de figuras inesperadas, entre o humor e a tragédia, entre o sério e o burlesco, que chegam até ao triunfo da vida na desordem da morte.

Depois deste desfiar de alegres tristezas, de divertidas comédias de ironia e graça, não se espera um conto como o que vem a seguir. Convite perturba, inquieta. É o destino do homem em paráfrase ou alegoria sobre a vida. Não se sabe quem morre nem por que morre. Nem sequer se percebe como morre. Não é Kafka, não é o tribunal da Inquisição. Não é cárcere de Pinochet nem "frigideira" do Tarrafal. É tudo isso junto no sem sentido de estar lá. E o homem que morre torturado não morre sozinho ele mesmo, sozinho nos seus anos maduros. Não, não é bem isto, ele morre sozinho, sim, mas morre todo, todo desde menino, desde criança de chuchar e brincar, morre adolescente e adulto, que essa é a grande tragédia da sua morte: estão todas nele, as várias idades. É ainda o menino que corre no jardim e ouve chamar "meu querido", mas a voz é outra, agora dói, dói muito. Essa a tragédia, esse o des(a)tino: todas as idades e todos os sonhos a morrerem num só momento e num só homem.

E o livro vai por aí adiante, de surpresa em surpresa, que se querem encontradas devagar, sempre na viagem da Língua elevada à categoria de música ou poema, de pintura ou arte dramática. Porque há de repente uma coisa assim: "...ele que era Santo porque podia escolher..." E o leitor pare então e pense nisto, ou pense nos santos que o são porque podem escolher e nos pobres diabos que não têm outro remédio senão sê-lo, porque a vida não lhes consentiu escolha. Ou veja-se regressar a casa, à nossa terra que recebe sempre bem, que se quer por mais que outras se tenham desejado, que nos serve de refúgio quando a viagem foi longa e cansou de ser diferente dos nossos hábitos e dos sentimentos à volta. "Dali, mais três léguas, é minha terra, aonde vamos. E lá não se vai por tédio ou curiosidade, só se vai por querer, seja o querer lá chegar, seja o querer daqui fugir."

"Seja o querer lá chegar, seja o querer daqui fugir." Lindo, não é? E verdadeiro. Sobretudo verdadeiro, que é o que dá mais beleza às palavras ditas ou escritas. O livro está cheio de palavras assim. Mas, além disso, é ainda como uma pintura em que a soma dos detalhes não corresponda à expectativa criada pelo pormenor, apenas porque suplanta todos eles.


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