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Contos de um mundo bizarro

Eduardo Nasi
Zero Hora (Porto Alegre, 28/08/2000)

O livro de contos Meu sonho acaba tarde marca a estréia na literatura de Leonardo Brasiliense Júnior.

Nem sempre o que se convencionou chamar de realidade acaba sendo a melhor forma de se representar o que acontece no mundo. Muitas vezes, encontrar essa forma de narrar é o que diferencia um livro bom de outro, ruim.

Formado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Maria, autor de O desejo da Psicanálise (Sulina), lançado no ano passado, Leonardo Brasiliense Júnior já estréia na ficção representando suas histórias a partir do potencial que a linguagem proporciona. O que é fundamental - afinal de contas, sem uma linguagem bem utilizada, Metamorfose, de Franz Kafka, seria um conto de terror de segunda. Nos contos do autor de 27 anos nascido em São Gabriel, a linguagem é o foco do ofício do escritor. Não só na escolha dos vocábulos que, adequados às situações, permitem a criação de um texto enxuto - mas, também, e principalmente, na pontuação. Para marcar o ritmo da narração, Leonardo quase exagera em pontos, vírgulas, dois pontos. É o tom preciso para as histórias bizarras que o autor apresenta.

O autor tenta, a cada conto, desdobrar um microcosmos que possa ser visualizado pelo leitor. Pelas poucas páginas de cada história percorrem, às vezes, quase uma dezena de personagens. Os contos parecem formigueiros de tanta gente que passa por eles. São seres bizarros, como Mirela (menina que encontra a sua outra, Mirela O.) ou Joãozinho (criança que não nasceu, "Joãozinho foi apenas uma possibilidade", diz o texto). No mundo caótico de Leonardo Brasiliense Júnior, restam muitas impressões e poucas certezas.


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