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Em busca de sintonia

Tailor Diniz
Aplauso, Ano 3, n° 22 (Porto Alegre, 2000)

Meu sonho acaba tarde é um desses livros que, para serem bem compreendidos, precisam de leitores em plena sintonia com o estilo posto à mesa pelo autor. Frases curtas e pontuação irritante, chegar até à última página é experimentar um estado permanente de desconforto. Se essa era a intenção do autor, alcança seu objetivo, o que já é um mérito e tanto. Ou seria possível passar por aqui - Pecado, é, no entanto, tive: - sem um grande sobressalto?

Naturalmente que há nisso tudo uma mensagem que precisa ser captada. E é aí que entra a história da sintonia, da mesma freqüência entre autor e leitor. Até porque os livros hoje são digitados totalmente no computador. Montadores de tipos - aqueles homens de vida dura e vista curta, que gastavam seus dias embrenhados nas gráficas de antigamente, catando letras, pontos, vírgulas, para montar uma página, e que no final do expediente já estavam pedindo água - não existem mais. O primeiro conto do livro, Lili e o Monstro, não é apenas o melhor. É um ótimo conto, que dá uma espécie de crédito aos que seguem. Crédito que se mantém até As Meninas, apesar de alguns excessos, principalmente de personagens, que somem tão logo aparecem, não obstante terem sido premiados com nome, sobrenome e até profissão. O conto A Raiva se encaminha bem, mas não tem a mesma solução de Lili e o Monstro, no qual a ambigüidade é utilizada como um ótimo elemento de reforço. Nada indica, porém, que Leonardo Brasiliense Júnior não leve jeito para o ofício da Literatura. Trata bem temas como a solidão e a loucura; não chega a inovar na linguagem, mas em alguns momentos mostra-se preocupado em criar um idioma ficcional próprio - o que, com bastante treino, pode trazer novos e bons ares para a nossa literatura.


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