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O leão arde

Paulo Hecker Filho
Porto & Vírgula (Porto Alegre, 07/11/2000) e Folha de Letras (Porto Alegre, dezembro/2000)

"Leão, arde", poderia dizer o poeta-contista Leonardo Brasiliense, embora apresente sua ardente angústia com delicadeza literária.

Seu recente livro "Meu sonho acaba tarde" já é um caráter de escritor completo, e admirável. Nos dois primeiros contos a angústia chega, e brincando, à esquizofrenia. No quarto, "A raiva", vai do terror à vingança assassina. Em "A moça atrás da vidraça" ele incorpora nada menos que o estilo do Guimarães Rosa, uma demonstração de talento, embora por isso mesmo tenha ficado meio fabricado. E brilham, ao menos em trechos, os outros três contos da primeira parte, que intitulou de "Estática", na boa educação com que dá vez ao seu persistente ímpeto de lucidez psicanalítica narrativo-lírica. O leão arde mas se comporta.

E na segunda parte de minicontos, "Corpos sem pressa" (sem pressa!), continua a arder. Destaco: "A carta", doce grito suicida; a última frase de "Fraldas"; "A bela morte" ou morrer esfaqueado sem um suspiro; "A passagem", em que se vê uma negrinha, "aquela coisinha de verdade, passar batendo o pé"; "Da origem do mundo", divino-maravilhoso sem deixar de ser terrível; "A família" e "A Conan Doyle", virtuosísticos na sugestão; "O porteiro", de novo o terrível com humor; "O vizinho", solidário no nada de existir, e este "Réquiem para Teresa" que, curto, reproduzo inteiro: "Notáveis os olhos de Teresa. Grandes. Inspiravam saudades não sei de quê. Por vezes tive vontade de comê-los. Hoje me contentaria em beijá-los. Impossível, pois a matei. Pior; acusei-a de nunca ter existido, mesmo reconhecendo que mentia. Teresa hoje é nada, um nadinha varrido para baixo do tapete, lá onde freqüentemente tropeço."

Haja poeta. Vem-me à memória a saudação de Hugo às "Flores do mal" de Baudelaire: "um calafrio novo". Isso. O leão, ou o homem que somos, arde.


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