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Uma gurizada nem aí

Vitor Biasoli
Jornal A Razão (Santa Maria, maio de 2010)

A Feira do Livro iniciou no último sábado e começou apresentando novidades. Na primeira sessão de autógrafos, lá estava Leonardo Brasiliense, lançando seu instigante livro juvenil: “Whatever” (Editora Artes & Ofícios). Digo instigante porque o livro provoca enormemente. Através de dez contos, utilizando o mesmo personagem – o adolescente João Pedro –, o autor configura o perfil de uma camada da juventude brasileira que representa um verdadeiro desafio para muitos de nós. Trata-se dessa juventude de classe média, mergulhada no mundo da TV, da Internet e do consumo, e alheia a qualquer projeto de vida. Uma juventude que está “nem aí pra coisa alguma”. Gurizada criada no maior conforto, com TV e computador em casa (muitas vezes no próprio quarto), informada de tudo, plugada no mundo, e, ao mesmo tempo, desinteressada, entediada e apática.

Pra mim, uma meninada de arrepiar os cabelos (os meus, claro). E quando escrevo “alheia a qualquer projeto de vida”, quero dizer a qualquer código de valores e ações capazes de construir a própria existência e, muito menos, que visem transformar ou conservar a sociedade estabelecida. Nada a ver com isso, declararia o personagem João Pedro com o maior enfado a qualquer adulto que o incomodasse com esse tipo de questionamento. E Leonardo Brasiliense faz dessa matéria-prima, dessa forma juvenil de estar e não se inserir no mundo, literatura de primeira linha. Sua narrativa assume a perspectiva do adolescente e cria cenas que nos coloca cara a cara com esse “pessoal nem aí”. O mundo não instiga nem provoca João Pedro e ele segue em frente. Vai à escola, passa de ano, vê muita TV, é comportado e não incomoda os pais com saídas noturnas, namoradas, bebidas e drogas. O mundo para ele parece ser um espetáculo a ser conferido na TV, atirado no sofá, mastigando umas fritas e bebendo refri. O mundo não é para ser vivido com intensidade. O mundo é muito chato.

Texto instigante para um leitor adulto que lida com essa meninada, mas não faço idéia de como será lido pelos adolescentes. A intenção do autor, claramente delineada no último conto, é de que o leitor juvenil perceba a completa furada desse tipo de comportamento. João Pedro é desafiado na última cena, tal qual são provocados os personagens de histórias de aventuras (por meio de uma aparição inusitada e irreal) e ficamos na expectativa. O leitor adulto percebe a intencionalidade do autor. “Está tudo aqui”, pensei, ao ler e reler a cena em que o personagem é provocado. Está aqui a possibilidade da transformação de João Pedro.

Uma leitura que recomendo para o leitor adulto e que, acredito, será valiosa para os milhares de jovens que ganham o mundo de bandeja e o desprezam, solenemente, com um murmúrio de tédio.


27/09/2010

 

 

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