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Dúvidas e indefinições de todos nós

Jaime Cimenti
Jornal do Comércio (Porto Alegre, 20/05/2010)

Desde as cavernas de sempre o ser humano tem medos, dúvidas, indefinições e milhões leem horóscopos nos jornais para saber o que vai ser do futuro e as colunas de meteorologia para saber se vai chover nas próximas horas. Como nossos tatatataravôs, seguimos cheios de indagações reais, imaginárias, filosóficas ou não. Três dúvidas, obra que reúne três novelas do escritor gaúcho Leonardo Brasiliense, é seu sétimo livro e sua estreia na editora Companhia das Letras. Brasiliense já recebeu o prêmio Jabuti com o livro Adeus conto de fadas em 2007. Leonardo é autor de O desejo da psicanálise; Meu sonho acaba tarde; Desatino; Olhos de morcego e Whatever. Em Três dúvidas, ele revela apuro formal e maturidade. Na apresentação, Luiz Antonio de Assis Brasil refere que a linguagem é segura, econômica e autônoma, que a urdidura das histórias é admirável e que as histórias estão bem contadas e salvos, mais uma vez, a ficção e os personagens. Assis Brasil considera Brasiliense uma nova e impressionante voz no cenário das letras nacionais. Mais não precisaria ser dito. Em sua coletânea, Brasiliense narra a história de um casal imerso na monotonia de um longo casamento, a trajetória dramática de um jovem que perdeu o pai e acaba num hospício, e a vida de um jornalista que tem um furo de reportagem na mão e tenta desvendar a verdade por si só. Como se vê, Brasiliense, com sua linguagem apurada, trata de sentimentos e de pessoas que podem estar vivendo no andar de cima ou em alguma casa próxima dos leitores. As narrativas tratam de sentimentos e situações nem sempre nobres e revelam o que está por trás e por dentro de nossos dramas pessoais, nossos desafios, dúvidas e incertezas. Vivemos num mundo pós-moderno, onde temos escassos momentos de certezas e de definições e no qual mestres e referências têm vida curta de cabeça de palito de fósforo. As novelas de Brasiliense mostram bem o quanto estamos em dúvida, em meio a coisas ditas reais e imaginárias. Não está nada fácil entender o mundo e as pessoas e, muito menos, compreender, minimamente, nossas próprias perplexidades. Sim, claro, nem falo de sanidade, loucura, realidade, fantasia, modernidade e outros conceitos que nossos tempos já colocaram em dúvida há muito mais tempo.


20/06/2010

 

 

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